Estudos apontam a correlação entre violência animal e violência humana

Leis anti-crueldade já existem há mais de 300 anos. Elas são adaptadas e melhoradas de acordo com as tendências de cada época. Desde os anos 90 são exigidas mudanças fundamentais que alteram a percepção no que diz respeito à negligência para com o sofrimento causado aos animais, em face às mudanças de percepção da sociedade perante às demais espécies, tornando-se cada vez mais comum a demonstração de vontade de proteção dos direitos dos animais, enquanto não pela liberdade plena, ao menos enquanto diminuição de sofrimento.

Alguns especialistas estimam que a recente mobilização de algumas leis, são fruto de estudos científicos que demonstram uma correlação direta entre a violência animal e outros tipos de violência. Nos últimos anos esses estudos foram transmitidos pela mídia.

Um dos casos chocantes que levantou mais uma vez essa discussão, foi de uma investigação que ocorreu em Georgia nos EUA, de um caso onde três gatos foram severamente torturados, queimados e dois deles morreram. O que ficou vivo teve partes de suas orelhas amputadas. As pessoas fizeram doações para pagar os gastos com veterinário e também perguntavam: Quem poderia fazer algo tão horrível com um animal inocente?

Quando a polícia prendeu um adolescente que estava envolvido nesse crime horrível, eles se perguntaram: Poderia uma pessoa tão cruel com os animais ser perigosa para as pessoas também? A opinião pública disse que sim. Mas o problema é que, até então, crueldade contra animais não tinha sido tão relevante para as estatísticas quanto outros tipos de violência o eram.

Estudiosos afirmam que um entre quatro criminosos, causaram violências contra animais na infância e que pessoas que foram presas por algum tipo de violência contra animais são mais suscetíveis à cometerem outros crimes e que mais da metade dos causadores de violência doméstica, como assassinato de mulheres, mataram ou violentaram também seus pets.

Em 1751 o artista britânico Willian Hogarth criou quatro gravuras intituladas As quatro etapas da crueldade. 

Na série ele ilustra o percurso criminal do personagem Tom Nero,

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Second Stage Of Cruelty, The Four Stages Of Cruelty, Willian Hogarth, 1751

um torturador de animais. A série começa com a representação da tortura de um cão, quando Nero ainda era criança, em seguida, já na fase adulta, um roubo e um assassinado, que se termina com a gravura recompensa da crueldade, com a dissecação pública de seus restos mortais após sua condenação e enforcamento por seus crimes. As gravuras expõem uma certa ironia, que reconhecemos hoje em dia como um fenômeno social trágico, mas que de certa forma, os assassinos em série mais famosos dos últimos 20 anos seguem a mesma forma cíclica de crimes, e todos, sem exceção, possuem antecedentes de violência contra animais.

Provas documentadas

A primeira prova documentada da correlação entre a violência cometida aos direitos dos animais e cometida aos humanos, vem de uma pesquisa feita em 1960, em um grupo de oitenta e quatro prisioneiros. O estudo demonstra que setenta e cinco porcento deles, culpados de crimes violentos, haviam antecedentes de crueldade contra os animais. Vinte anos mais tarde, feito por um outro grupo de pesquisa, um estudo revela que, 38 dos cento e cinquenta e dois prisioneiros agressivos estudados, tinham cometido ao menos cinco atos de crueldade contra os animais durante a infância, contra apenas seis porcento dos prisioneiros não agressivos. Numa segunda pesquisa, essa mesma equipe de pesquisadores fizeram entrevistas individuais com um grupo de criminosos, afim de reunir a descrição de seus atos de violência contra animais. Os resultados desses trabalhos fornecem um suporte adicional para a hipótese de que existe uma relação entre crueldade cometida aos animais na infância e a conduta agressiva aos humanos na idade adulta.

Em 1988, em uma pesquisa feita com assassinos em série, a maior já realizada até o momento, trinta e seis porcento dos maníacos estupradores cometeram atos cruéis aos animais na infância, contra quarenta e seis porcento na adolescência e trinta e seis porcento na fase adulta.

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Tríade da psicopatia. J.M. Macdonald, em “The Threat to Kill”, 1963

Em um estudo feito em 1997 pela Sociedade protetora dos animais de Massachusetts, em colaboração com a Universidade de Northeastern, setenta porcento dos que cometeram alguma violência contra animais, estavam fichados na justiça por cometerem também algum outro ato de violência contra humanos, ou posse de narcóticos, ou outras irregularidades. Esse resultado motivou uma nova pesquisa realizada de 2001 à 2004 pelo departamento de polícia de Chicago, ao qual, depois de examinar trezentos e vinte e dois casos de prisão por crueldade animal, ele chegou a seguinte conclusão: sessenta e dois porcento dos indivíduos presos eram suspeitos por outros crimes (alguns homicídios), oitenta porcento tinham sido presos várias vezes, setenta porcento eram suspeitos por tráfico de drogas, e sessenta e cinco porcento por terem cometido outros atos de violência. Vinte e sete porcento entre eles foram julgados por queixas portando arma de fogo, treze porcento tinham cometido crimes de estupro, e cinquenta e nove por cento eram suspeitos de fazer parte de gangues.

Certamente esses estudos aliados à divulgação midiática trazem uma melhor compreensão da importância de lutar contra toda forma de violência, seja ela qual for.

O papel da legislação

Práticas que envolvem crueldade animal usado para o entretenimento também recebem pressão para que deixem de existir ou passem a não mais usar animais. Em 2016, no Brasil, o STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu como inconstitucional a prática da vaquejada, por considerar que a mesma causa maus tratos aos animais, derrubando uma decisão que regulamentava a prática em um estado. Mas essa discussão ainda está acesa. Tramita em 2017, uma emenda que tenta tornar a prática como “não cruel” desde que seja considerada como manifestação cultural.

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Foto: “Human Foosball Tournament” – Pebolim humano – Stephensville / EUA

Por outro lado, um exemplo interessante de mudança aconteceu na comunidade Stephensville nos Estados Unidos, onde o evento Pig Wrestling (Pegue o porco), que ocorria à 44 anos, foi substituído por um novo modelo de festa, um torneio de pebolim humano.

Hoje em dia muitas leis já condenam maus tratos aos animais, mas essas leis nem sempre protegem os animais destinados para consumo humano na indústria. Mesmo que esses sejam igualmente sencientes como os animais domésticos, que são por sua vez mais considerados na abrangência das leis. Porém, com a persistência da sociedade e das organizações de proteção aos animais, isso vem se transformando cada vez mais, através de investigações e denúncias que acometem animais em abatedouros, onde os agentes criminosos são finalmente penalizados. Como é o caso recente de três funcionários da indústria do leite que foram sentenciados à prisão por atos de crueldade contra animais, capturados por câmeras escondidas. A investigação foi conduzida pela associação Mercy For Animals, na fazenda Chilliwack Cattle Sales, em British Columbia – Canadá.

Além da questão moral que temos para com os animais, sobre o direito do indivíduo à vida e liberdade, ainda existe a relação entre crueldade animal e violência humana, o que pode fortalecer ainda mais o argumento para apoio às leis contra crueldade animal, e através dessa frente, como consequência, a abolição da escravidão animal. Temos o compromisso de impedir toda forma de violência, seja ela cometida aos humanos ou aos animais. Se a violência contra animais pode ser um indicador de sérios problemas, então temos que encorajar as leis locais para que a punição aos crimes de maus tratos cometidos aos animais sejam cada vez mais severas.

Referências:

Pamela D. Frasch et Hollie Lund, L’Animal dans la spirale des besoins de l’humain, discours d’ouverture

Daniel Hellman & Nathan Blackman, Enuresis, Firesetting and Cruelty to Animals: A Triad Predictive of Adult Crime, 122 Am. J. Psychiatry 1431 (1966)

Alan R. Felthous & Stephen R. Kellert, Childhood Cruelty Toward Animals Among Criminals and Noncriminals, 38 Hum. Rel. – 12 (1985)

Alan R. Felthous & Stephen R. Kellert, Violence Against Animals and People: Is Aggression Against Living Creatures Generalized?, 14 Bull. Am. Acad. Psychiatry Law 55 (1986)

Ressler et al., Sexual Homicide: Patterns and Motives (Massachusetts, Lexington Books 1988)

Carter Luke et al., Cruelty to Animals and Other Crimes: A Study by the MSPCA and Northeastern University (1997)

Chicago Police Department Statistical Summary of Offenders Charged with Crimes against Companion Animals, July 2001-July 2004, Chicago Police Department (Illinois 2008).

https://fr.wikipedia.org/wiki/Les_Quatre_%C3%89tapes_de_la_cruaut%C3%A9

https://www.questia.com/newspaper/1G1-193856183/if-done-to-animals-are-people-next-why-animal-abuse

http://www.humanesociety.org/issues/abuse_neglect/qa/cruelty_violence_connection_faq.html

https://www.linkedin.com/pulse/moral-dilemma-childhood-psycopathic-behavior-animal-cruelty-wray

http://www.mercyforanimals.org/historic-victory-workers-at-canadas-largest

http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2017/06/07/internas_polbraeco,600720/ao-legalizar-vaquejada-no-brasil-legislativo-rebate-decisao-do-suprem.shtml

http://veganosnocanada.com/peticao-interdicao-pegue-o-porco/

http://www.postcrescent.com/story/news/local/2015/08/09/human-foosball-replaces-pig-rassle/31391915/

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