Veganismo e a falta de paciência dos veganos sobre o assunto racismo

Esse texto defende a necessidade do diálogo, respeito, atenção e reflexão quando nos apresentam assuntos delicados e que discordamos logo de imediato. Suspeite quando você tiver uma reação negativa imediatamente após ler um conteúdo. Pode ter um abismo de informações ainda não compreendidas e desassociadas por falta de uma reflexão mais apurada após a leitura.

De um tempo, respire, tome uma água, coma uma maçã, e considere que existem perspectivas que não são suas. Existem assuntos que você nunca vai entender através de um texto porque eles não podem ser explicados com palavras. Reagir de imediato é absolutamente normal, um comportamento puramente humano, ter consciência disso e respirar um pouco é o que faz a diferença. Vamos lembrar que já acreditamos fielmente em alguma coisa até um certo momento da vida, mas depois entendemos que não era nada daquilo, e por isso fizemos uma mudança. Faz parte.

Mas eu quero falar de veganismo, e para isso vamos começar falando lá de baixo, dos fundamentos. Se a gente analisar os conceitos fundamentais do veganismo, a gente vai entender que, na verdade, ele faria muito mais sentido ter crescido e se desenvolvido primeiramente em meios desprivilegiados da sociedade, para só depois chegar nos mais favorecidos e, por último, nos ricos. Acontece que por diversos fatores isso não aconteceu e cá estamos, não acontece ainda hoje em dia. Pois é, nem tudo funciona como a gente quer ou idealiza.

Existe uma corrente de pensamento que busca desatrelar cada vez mais o veganismo de questões puramente alimentares e dietéticas, no qual eu sigo concordando cada vez mais. Vejo vários benefícios nisso que vou explicar mais abaixo. Algumas correntes de pensamento propõem até mesmo deixar de usar o termo veganismo e passe a usar o termo antiespecísmo, existem lá seus motivos (leia mais sobre isso aqui), mas essa não é a pauta dessa postagem.

Eu proponho que analisemos friamente cada pilar do movimento vegano. Acredito que isso vai nos ajudar muito a criar uma abordagem mais direta e efetiva, para públicos específicos e não nos perdermos na hora de advogar pelos animais. Então vamos começar pela questão alimentar. Não que eu queira, mas é que sou obrigado:

Veganos não são essencialmente vegetarianos.

Sim, nós nos alimentamos apenas de vegetais, mas isso é uma consequência da luta por direitos animais. Não compete advogar pelos direitos de animais e comê-los no jantar. Então, eu não me denomino vegetariano, eu sou vegano. Eu não seria vegetariano por nenhum outro motivo que não os animais. Da para entender melhor essa desassociação quando fazemos a seguinte comparação:

– Se uma pessoa vira vegetariana hoje por questões de saúde, ela vai deixar de comer ingredientes de origem animal, sim. Mas o que ela vai fazer com os produtos de origem animal que ela já havia comprado e estão estocados na geladeira? Certamente ela não vai comer.

– Se uma pessoa vira vegana hoje (e aqui vamos entender que é vegana pelos animais), ela vai deixar de comer ingredientes de origem animal? Vai! Ela não vai mais comprar e financiar a indústria? Não vai! Mas o que fazer com aqueles produtos de origem animal que estão na geladeira? O relógio com pulseira de couro? O sabonete testado em animal? O hamster que ela comprou e está engaiolado? Vai doar o hamster? Vai jogar tudo a comida fora?  Vai comer?

Se ela virou vegana pois não quer financiar a indústria pecuária, ela deu esse passo agora, mas o que fazer com o que ela comprou antes de fazer a mudança? Não vai mudar absolutamente nada na vida daqueles animais que já morreram e/ou viraram produto pra ela, vai? Entenda onde quero chegar. Quando falamos da comida, é até nojento comer os produtos da geladeira, ou até mesmo, desrespeitoso para com os animais (não vou julgar), mas eu acredito que aqui caiba mais uma razão psicológica e puramente fundamentalista do que prática. Mas ainda assim fica difícil de lidar com a questão da comida. Falo até mesmo por mim, eu acho que não comeria. De qualquer forma eu não julgaria se a pessoa comesse, uma vez que o estrago já teria sido feito. Essa reflexão pode causar um sentimento de desconforto, que é justamente o que eu quero despertar aqui para falar do próximo ponto.

A comida e seu papel emocional.

Já viu o quanto de propaganda existe? Você pode gastar toda sua saliva para falar de ética, mas o que seria da nossa vida sem os prazeres? Para cumprir esse papel existem os produtos veganos (fakemeat, leite de soja, coxinha de jaca, queijo de castanha, e por aí vai) que vem fazendo papeis incríveis no ativismo. Mas não é a toa que o veganismo tende a se resumir à comida na maioria dos meios de discussão e a parte ética fique meio que em segundo plano. A parte ética, o meio ambiente, a dor dos animais, são as partes chatas de “veganos chatos”.

Vegan Side Kick

A comida e seu papel social.

Comer é um privilégio. Escolher o que comer também é um privilégio. E eu não estou dando razão para ricos que se escondem atrás de pobres para perpetuar seus privilégios de comer carne. Branquitude privilegiada comedora de carne é assunto para outro artigo. Eu estou falando dos pobres. E não é o pobre que tira foto de arroz com feijão e posta na TL do Facebook pra provar que é mais barato que carne, estou falando de gente que quer ter apenas um prato de comida, seja ele qual for.

A comida está associada ao luxo e não é de hoje. Só que é justamente sobre ela que queremos discutir, então sem uma boa estratégia, a chance de dar merda é muito grande. A informação picotada, a falta de paciência de veganos e o prazer dos anti-veganos em distorcer o que o veganismo propõe, dificulta ainda mais esse acesso. Então eu acredito que, dependendo da situação, fazer as pessoas entenderem primeiramente que animais precisam ter direitos fundamentais para só depois falar de comida, pode ser uma saída para causar empatia nessas pessoas. Mas sempre com muita atenção, foco, respeito e paciência (o que está sendo raro no movimento).

Ética, direitos animais e toda a parte que as pessoas não querem saber

Animais precisam que essa parte seja considerada. Só que ela é muitas vezes descartada, subjugada, difícil. Para torna-la agradável ela precisa ser interessante. Não é todo mundo que vai ter paciência. Não é todo mundo que tem acesso a bate-papos como esse. Então seja lá com quem estivermos falando, aqui entra o papel de estabelecer uma conexão entendendo as dificuldades apresentadas pelas pessoas (as vezes vem disfarçadas de argumentos), suas necessidades emocionais (ainda que pareçam questionáveis para nós), cada pessoa tem uma cabeça e interpreta necessidade de uma forma. Baixar um pouco a guarda e começar a trocar uma ideia mais empática, respeitando e procurando manter uma sintonia de pensamentos, conseguimos chegar onde queremos que é no sistema de crenças. Precisa ter folego, ter paciência, saber lidar com reações indesejáveis. Ué, você não queria defender animais?

Enfim, muitos mitos podem ser derrubados se entendermos que, fundamentalmente, veganismo tem mais a ver com luta por direitos animais do que pura e simplesmente comer vegetais.

A questão política e econômica

Não temos incentivo do estado, não temos incentivo das grandes corporações, então as campanhas são limitadas. Não estamos na TV, não estamos nas grandes mídias, não estamos nos outdoors, não estamos na caixinha do hambúrguer do méque. Dessa forma fica difícil mesmo de chegar em locais onde algumas informações chegam de forma limitada, e as que chegam, tem mais um papel de perpetuar o modo de vida atual (a pobreza e limitação de acesso à informação, por exemplo), do que para causar mudanças e melhoras na vida daquelas pessoas. Eu entendo tudo isso, mas eu quero mudar isso.

O que a gente precisa fazer não é necessariamente o que eu quero. Eu proponho que sejamos mais práticos, mais estratégicos, e com isso sejamos menos reacionários, mas a escolha é de cada um. Parar de reagir instantaneamente para o que a gente se incomoda, e começar a refletir, procurando uma maneira de resolver os problemas de informação e de falta de conhecimento, é o que eu acredito que vai provocar mudanças substanciais. Além disso, acredito que dessa forma temos grandes chances de ganharmos simpatia e aderência de pessoas de outros movimentos. Isso tem tudo para acontecer, mas as pessoas de outros movimentos ainda parecem correr em sentidos contrários.

Não perder a linha e se não se perder em confusões mentais, distorções, generalizações faz bem para os animais. Saiba perceber onde o racismo existe, até mesmo em você, e lute contra ele. Saiba ouvir antes de falar. Nem sempre as palavras usadas como objeção representam o que o indivíduo pensa de fato sobre o assunto. As palavras escolhidas como contra-argumento nem sempre nos mostram com clareza o que o individuo está sentindo de fato, ou quais são suas reais dificuldades. Uma dúvida pode vir mascarada de crítica e vice-versa. As vezes o buraco é mais embaixo e as questões impostas são mais profundas do que a gente imagina.

Para finalizar, esses conflitos e a falta de diálogo afetam diretamente os animais. Eles ficam no fogo cruzado. Então, mais uma vez, ter a cabeça no lugar, trocar ideia, aprender um pouco com as pessoas sobre a vida que a gente não viveu e não conhece, pode ser muito benéfico para OS ANIMAIS.

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